Exposição

Rumos

Janny Cárdenas

03/05/26

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07/06/26

quarta a sexta

10h

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17h

sábado

10h

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15h

domingo

12h

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17h

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A mostra coletiva “A felicidade é uma arma quente” inaugura o Garoa e apresenta trabalhos de Ana Gavião, Clarice Lima, Estela Sokol, Gokula Stoffel, Guga Szabzon, Lenora de Barros, Lia Chaia, Lívia Aquino, Patrícia Araujo, Raphaela Melsohn, Rubiane Maia, Val Souza e Vera Chaves Barcellos. Com curadoria de Galciani Neves, a mostra parte da música do cantor cearense Belchior, que homenageia John Lennon, e chama para uma conversa acerca dos modos de lidar, formular e experimentar noções de felicidade como uma sensação/estado de ânimo coletivo, como ignição para ações de resistência, como gestos de invenção da vida em contextos de produção artística, política, cultural.

Buscar a felicidade e traduzi-la como linguagem, dois processos que ressoam entre si, desde que o cotidiano eclipsou os ritmos da vida. Há muito tempo, a felicidade vem sendo discutida pelo pensamento ocidental. A citar: Platão a compreendia como um estado de plenitude da alma, alcançado pela razão e pelo conhecimento, liberto dos prazeres mundanos e das ilusões; na perspectiva aristotélica, seria como um florescimento humano, um bem comum a ser alcançado e desfrutado, coletiva e socialmente, na vida política, em uma dimensão avessa ao prazer individual e momentâneo.

Um grande salto temporal nos leva a uma gigantesca diferença de parâmetros. Em muitas reflexões contemporâneas, como as de Byung-Chul Han, a felicidade tornou-se item de consumo, e, assim, transformada em tarefa, mas, obviamente, uma tarefa muito bem travestida pelo desempenho, pela produtividade e pela positividade, operantes em um indivíduo “sem dor, feliz e realizado”, porém esgotado. Em acordos, que nos foram sendo empurrados, o sujeito íntimo e o cidadão público convulsionaram, os ideais de uma vida ativa e virtuosa sucumbiram à meritocracia e suas derivações surgiram em avalanches como “não basta apenas ser feliz, tem que…”, “é preciso uma vida psicologicamente rica, senão…”, “feliz no simples” (leia-se cheio de privilégios e classista).

Das infindáveis reflexões sobre felicidade, esta mostra entrecruza algumas (Baruch Spinoza, Belchior e Agnès Varda) e desenha livremente pontes entre seus tempos, entre suas origens discursivas, entre seus campos de atuação (filosofia, música, artes visuais, cinema), e, tal como uma experimentação poética, as aproxima dos trabalhos de Ana Gavião, Clarice Lima, Estela Sokol, Gokula Stoffel, Guga Szabzon, Lenora de Barros, Lia Chaia, Lívia Aquino, Patrícia Araujo, Raphaela Melsohn, Rubiane Maia, Val Souza e Vera Chaves Barcellos. Esse emaranhado de narrativas e visualidades, que se perpassam, em suas diversidades e singularidades, cria no Garoa um contexto de convivência aberto a experiências e conexões imprevistas.

O filósofo Baruch Spinoza (1677) debruçou-se sobre noções de alegria, defendendo, em primeira instância, a importância de um estudo sob o método geométrico (uma abordagem filosófica) acerca do assunto. Impressionava-o o fato de autores assertivos e com pensamentos tão profundos abusarem de sua eloquência para desmerecer e nomear como “tolice” ou “defeito” esse sentimento “bobo e mundano”, típico de sujeitos com menos discernimento ou com acepções pouco convincentes diante do mundo. Para ele, a existência do corpo humano se define em seus afetos e encontros. E o “bom encontro” resultaria em alegria, ou seja, o aumento da potência de agir, sentir e existir. Assim, a alegria, para Spinoza, não era um prazer passageiro, uma sensação individual, mas um afeto fundamental que aumenta nossa potência como seres em conexão.

Em 1979, o cantor cearense Belchior lançou o álbum Era uma Vez um Homem e Seu Tempo. Em uma explícita homenagem a John Lennon e à música Happiness Is a Warm Gun (White Album, 1968), o cantor, ressentido do fracasso do movimento de contra cultura “paz e amor”, espalhou seus versos: “João, o tempo andou mexendo com a gente, sim/ John, eu não esqueço, a felicidade é uma arma quente”. Entre o desencanto e a busca de liberdade, a felicidade é vislumbrada por Belchior como instrumento, meio, prática para sobreviver em um país onde tudo parecia que ia desabar em instantes, e para lidar com seus muitos e incontornáveis limites.

A cineasta Agnès Varda certa vez confessou que sentia que fazer cinema se assemelhava muito aos processos de preparar um jantar e convidar para sua casa pessoas que não necessariamente se conheciam. “[…] estar com uns e partilhá-los com os outros” possibilitaria a vivacidade dos encontros inéditos e a liberdade de se lançar em conversas com abertura ao outro e ao acaso.

Nesse mostra, ousamos aproximar as compreensões de alegria e felicidade. E, a partir de Spinoza, percebemos a felicidade como um acontecimento que é ativado pelo corpo e se espraia para além do corpo, movimentos estes que ampliam a existência e a intensidade de percepção da vida pulsando. Por isso, podemos intuir, é urgente inventar e habitar espaços de liberdade, pois só um corpo livre é feliz. Acercando-nos da música de Belchior, podemos acreditar que um corpo que sucumbe não é por ser fraco, mas porque sente demais em um mundo que o obriga sempre a sentir menos, a se travar, a agir apesar dos limites impostos pelas forças de opressão.

Somamos as sensações narradas por Varda aos trabalhos das artistas aqui reunidas, e, assim, pensamos que suas percepções de mundo, que informam seus processos artísticos, nos indicam um estado de ânimo para abrir as portas e janelas do Garoa e nos incentivam a acreditar que a arte pode constituir contextos para vivenciarmos tempos de conversa, experimentação e para estarmos juntes. Instruções para vivenciar com o corpo; propostas para imaginar o corpo em movimento; registros de ações e performances que promovem vínculos com o lugar, suas formas de vida e suas condições sociais, culturais e políticas; imagens e formas que foram produzidas na vibração do corpo e que guardam a energia dos gestos nos convidam a pensar o corpo, o que pode o corpo, o que move o corpo e o que o corpo pode mover. Os trabalhos destas 13 artistas podem nos instigar reflexões sobre a felicidade, sem recorrer a uma perspectiva alienante ou otimista demais, e nos chamam a percebê-la como um convite à ação, como uma estratégia de transformação, como um exercício de natureza irrestrita e dissensual do corpo em afecção, como um fenômeno de partilha entre corpos, que reivindicam tempos e espaços de bem viver ao mesmo tempo que os desfrutam.